domingo, 26 de fevereiro de 2012

DA RELIGIÃO AO CORDEL: Região é ´celeiro de arte´ no Ceará

Crato. Com cerca de 300 grupos e manifestações da cultura popular, a região do Cariri se configura como um "celeiro de arte" do Ceará. Com geografia favorável e associada ao processo civilizatório do Estado, que teve início a partir da região, a identidade cultural do povo caririense se sobressai com relação às demais. 

A partir da instalação dos imigrantes religiosos e desbravadores vindos da Casa da Torre, na Bahia, a região foi se transformando em uma área de exploração econômica em que a contribuição ibérica fundiu-se à cultura ameríndia das tribos indígenas nativas e à cultura africana, trazida pelos escravos negros há cerca de 300 anos. Essa mistura cultural fez com que o Cariri se tornasse uma fonte ativa de matrizes culturais, disseminadas para todo o Brasil e até mesmo para o exterior.

Os folguedos, violeiros, repentistas, cordelistas, a culinária e a religiosidade são alguns dos segmentos que compõem a cultura material e imaterial da região do Cariri que permanece viva, servindo de elementos de base para o surgimento de manifestações mais contemporâneas. Todos esses elementos misturam-se entre as linguagens.

Na música, por exemplo, o repente e o hip hop mesclam-se, conquistando os públicos de idades e gostos diferentes, sem perder a identidade representada por elementos ancestrais da cultura regional.

Toda a fortaleza e ebulição cultural da região é atribuída ao pertencimento do povo pela arte. Fato que se sobressai sobre qualquer tipo de desinteresse ou irresponsabilidade dos gestores públicos quanto aos investimentos, apoio e incentivo às manifestações culturais. Todos os Municípios da região e do Estado dispõem de programas de apoio à cultura. No entanto, os recursos são insuficientes, em virtude da grande demanda de grupos.

Para o dramaturgo e folclorista Cacá Araújo, todos os segmentos e manifestações precisam ser livres. "A necessidade latente dos grupos é quanto à dignidade de seus componentes, cada um deles precisa de emprego, qualidade de vida. O ideal seria que cada um deles pudesse fazer da arte uma manifestação livre. Se todos os componentes tivessem isso, que considero o mínimo, jamais iriam bater em uma porta de prefeitura para pedir apoio, fariam a arte com seus próprios recursos", afirma.

Ainda segundo Cacá Araújo, os valores e as tradições regionais precisam estar em evidência. Para ele, a falta de visibilidade regional tem acarretado um imenso prejuízo para as tradições populares, fazendo com que alguns grupos sejam conhecidos apenas através da oralidade, sem o uso de novas tecnologias de alcance e atração maiores. De acordo com ele, para que houvesse uma democratização cultural, seria necessário que os meios respeitassem a regionalidade. "É preciso garantir espaço para as manifestações populares. Só assim teríamos um Brasil bem mais brasileiro".

Na região, a maior parte dos grupos e manifestações culturais permanece somente nos guetos das comunidades onde elas existem, sendo apresentada a públicos maiores apenas em eventos. Entre as manifestações da cultura popular do Cariri, as que mais fortemente identificam a região no cenário mundial são os folguedos e a religiosidade, já que elas demonstram vitalidade e capacidade de sobrevivência às adversidades e ainda são ajudadas por serem referência para as outras linguagens, como a música, teatro, cinema e dança.

Porém, todos os elementos representam a harmonia universal do Cariri. E, independente da vontade e da ação dos gestores públicos, a cultura regional atrai, diariamente, pessoas de todas as regiões do País e tem ocasionado o fortalecimento do crescimento dos Municípios.

Mais informações
Companhia Cearense de Teatro Brincante
Rua Dom Quintino, 913, Centro
Telefone: (88) 8801-0897


Fonte: DN

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